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  • Pedro Gouvêa

O modelo de flexibilidade psicológica aplicado à ansiedade social

A flexibilidade psicológica é uma teoria do funcionamento humano saudável desenvolvida pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Sua contraparte, ou seja, a psicopatologia, é representada pela inflexibilidade psicológica. Todo processo terapêutico nesta abordagem visa promover ou melhorar a flexibilidade psicológica do cliente.

A flexibilidade psicológica é composta por 6 processos centrais e suas contrapartes "psicopatológicas":

  • Aceitação/esquiva experiencial

  • Desfusão cognitiva/fusão cognitiva

  • Atenção ao momento presente/atenção inflexível voltada para o passado ou para o futuro

  • Self-como-contexto/Self conceitual

  • Conexão com valores/falta de clareza sobre os próprios valores

  • Ações de compromisso/Esquiva e impulsividade

Bem, como não existe ainda um estudo sistematizado que tenha descrito a ansiedade social a partir desse modelo, esse artigo é meramente um exercício teórico, embora consistente com a literatura da área. Além disso, o artigo não se propõe a aprofundar o assunto, apenas discorrer brevemente sobre ele.

Na dimensão da aceitação, podemos pressupor que o indivíduo com transtorno de ansiedade social (TAS) se engaja ativamente em tentativas de controlar ou evitar seus estados privados aversivos (ansiedade) evocados pelas situações sociais. Nesse sentido, ele também evitaria as próprias situações sociais que desencadeiam esses estados privados, indicando, possivelmente, um padrão inconsistente com seus valores.

A falta de clareza sobre os valores pode ocorrer muito em função das próprias esquivas sociais que o indivíduo se engaja, de modo que ele fica tão preocupado e ruminando maneiras de evitar as situações que não consegue pensar sobre o que realmente é importante para si. Por exemplo, o indivíduo pode valorizar o ato de compartilhar sua vida com uma parceira, mas não se engaja nesse comportamento, pois sua mente fica a maquinar de que maneira evitará um próximo encontro social. Portanto, a clareza sobre os valores e as ações de compromisso orientadas por esses valores ficam prejudicadas.

Na dimensão da desfusão cognitiva, possivelmente o indivíduo com TAS responde de forma literal e automática ao conteúdo dos seus pensamentos. Ou seja, ele se vê exatamente como aquilo que seus pensamentos lhe dizem que é e não consegue ver os pensamentos como apenas pensamentos. Por exemplo, se ele pensa que é "estranho", reage a esse pensamento como se isso fosse uma verdade absoluta sobre si, sem tomar consciência de que está tendo esse pensamento e se "desvincular" dele.

Na dimensão da atenção ao momento presente, os indivíduos com TAS costumam apresentar uma atenção inflexível voltada ao futuro, imaginando resultados sociais negativos ou até mesmo catastróficos. Sua atenção geralmente está focada nas possíveis interações sociais futuras que representam uma ameaça ou em erros cometidos em interações sociais passadas. E certamente, também há um foco de atenção exagerado em relação ao que os outros pensam de si mesmo.

Por fim, na dimensão do self-como-contexto, o indivíduo com TAS presumivelmente assume um "eu" conceitualizado, ou seja, toma a si mesmo como sendo os conceitos negativos que tem de si mesmo, sem diferenciar-se deles. Seu senso de tomada de perspectiva está prejudicado.

Esse breve exercício teórico pode ser importante para subsidiar uma formulação de caso e o planejamento de intervenções coerentes com a ACT em casos de TAS. Ficamos na expectativa de que, em breve, tenhamos estudos sistematizados que discutam o TAS a partir da perspectiva da ACT e do seu modelo de flexibilidade psicológica!



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