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  • Pedro Gouvêa

Por que a Análise do Comportamento não vê a Fobia Social como uma doença?

A Análise do Comportamento é uma maneira alternativa de ver os fenômenos psicológicos, incluindo os fenômenos que costumamos chamar de "transtornos mentais". A Fobia Social, ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS), é considerado um destes transtornos mentais.

Dentro de uma visão tradicional, ou seja, na visão médica ou da Psicologia tradicional, os transtornos mentais são vistos como anormalidades do organismo resultantes de disfunções neuroquímicas ou de personalidade. Nesse sentido, o TAS seria uma condição "anormal", uma doença que a pessoa desenvolve a partir destes dois elementos citados: disfunções neuroquímicas ou "falhas" de personalidade.

Notem bem. Tanto a ideia de disfunções neuroquímicas quanto a de "falhas" de personalidade são extremamente "individualistas". Ou seja, é como se o tal transtorno ou patologia fosse "culpa" exclusivamente do próprio indivíduo. Explico melhor.

Se eu tenho algum tipo de alteração neurobiológica que me faz ficar ansioso em situações sociais, o problema está comigo, no meu cérebro. Por outro lado, se eu tenho alguma "fraqueza de personalidade" que, supostamente, me faz ficar ansioso em situações sociais, o problema também está comigo, ou seja, na minha mente ou personalidade.

Essa é a visão médica e psicológica tradicional. Tradicional porque é a mais aceita e difundida na nossa cultura. No entanto, há diversos problemas com esta visão.

O problema central desta visão é que ela atribui os comportamentos fóbicos sociais unicamente a fatores internos, como se houvesse algo essencialmente "errado" no indivíduo. Ela desconsidera, ou pelo menos minimiza, o papel da história de aprendizagem da pessoa e da cultura.

E aí está a diferença fundamental em relação a forma como a Análise do Comportamento vai interpretar a patologia, no caso aqui, o TAS.

A Análise do Comportamento entende que não há absolutamente nada de "anormal" ou essencialmente "errado" na pessoa com TAS. A razão é simples. Primeiro, porque os comportamentos descritos como "fobia social" são aprendidos a partir das experiências de vida da pessoa. Logo, são resultantes de fatores externos e não internos. Segundo, a cultura é que vai classificar, através da linguagem, algo como "errado", "patológico", "inadequado", etc.

Portanto, não há doença quando se fala em transtornos mentais, incluindo o TAS, e sim um conjunto de comportamentos aprendidos na relação da pessoa com seu ambiente e que que vai ser nomeado pela cultura (psiquiatria, principalmente) como "fobia social" ou TAS.

Se aprofundarmos a análise, podemos dizer que o TAS corresponde ao único conjunto de respostas possível ao indivíduo em função das suas aprendizagens ao longo da vida. Ou seja, tendo passado pelo que passou e vivendo na cultura que vive, o indivíduo não tem como escapar de sentir ansiedade em situações sociais.

Mesmo considerando os fatores genéticos envolvidos no quadro, que, certamente, podem ter um papel importante, o ponto básico é que não podemos interpretar o TAS como uma doença da mesma forma que interpretamos uma Diabetes ou qualquer outra doença médica.

Sempre quando falamos de comportamento, precisamos olhar para a história de vida da pessoa e para a cultura. Somente assim, o comportamento considerado doença fará sentido e a própria visão dele como uma doença poderá ser rompida. Sem isso, caímos na ideia simplista e perigosa do senso comum de culpabilizar somente a pessoa por apresentar certos comportamentos.

Se eu fico muito "nervoso" ao falar em público, não é porque tenho uma doença ou tenha algo de "errado" dentro de mim, mas sim porque, provavelmente, passei por alguma situação onde fui envergonhado ou criticado quando fiz uma apresentação, por exemplo. Logo, aprendi que falar em público é "perigoso" e a situação adquiriu um caráter aversivo, produzindo um amplo conjunto de comportamentos de evitação da mesma.

Por fim, é coerente pensar que todas as psicopatologias, incluindo o TAS, são construções culturais, e não anomalias naturais do indivíduo. Sem um contexto, uma cultura, uma comunidade verbal para ditar o que é "normal" ou "patológico", não haveria sentido em falar sobre transtornos mentais.


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