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  • Pedro Gouvêa

Qual a relação entre ansiedade social e cultura?


Sabemos que todo e qualquer comportamento é determinado por três fatores inter-relacionados: fatores genéticos, pessoais e socioculturais. Na Psicologia e Psicoterapia moderna, cada vez mais tem se dado atenção aos aspectos sociais e culturais que determinam os comportamentos.

Em outras palavras, precisamos sempre levar em conta o contexto em que o comportamento ocorre. Nenhum comportamento faz sentido se analisado de maneira isolada, desconectado de seu contexto imediato e histórico.

A cultura consiste dos estímulos simbólicos que são compartilhados por um determinado grupo social, especialmente por meio da linguagem (ou sistema de signos). Esses estímulos simbólicos podem ser "rótulos diagnósticos". Assim, temos uma cultura que simboliza certos padrões de comportamento como "desviantes" (a fobia social, por exemplo) e outros como "saudáveis" (ficar relaxado em situações sociais, por exemplo).

Porém, como o comportamento é sempre contextual, certos padrões comportamentais podem adquirir diferentes significados em diferentes culturas. Um bom exemplo disso é pensarmos em como a timidez é simbolizada em algumas culturas orientais em comparação às culturas ocidentais.

Em alguns países orientais, os comportamentos de reserva e reticência social são simbolizados de maneira positiva, ou seja, ser "tímido" representa um comportamento esperado e bem visto.

Por outro lado, na grande maioria dos países ocidentais, ocorre o oposto. Os comportamentos expansivos e extrovertidos são muito mais valorizados e os comportamentos de ansiedade social tendem a ser encarados como "inadequados", expressando uma verdadeira "cultura da extroversão".

É interessante citar o caso de uma condição conhecida como "Taijin Kyofusho". Essa condição corresponde, basicamente, à fobia social no Japão, porém, com algumas particularidades. A principal delas refere-se ao medo exagerado de incomodar ou constranger o outro. Por exemplo, o indivíduo teme ofender o outro a partir de algum gesto ou palavra inadequada ou constrangê-lo por exalar algum odor desagradável.

Então, repare que a ansiedade social é totalmente dependente do seu contexto cultural. Infelizmente, a nossa cultura ocidental da saúde/doença mental tende a patologizar excessivamente comportamentos, sentimentos e pensamentos. Mas isso não é um processo natural, é cultural e até mesmo político (no sentido de relações de poder quando, por exemplo, sujeitos diagnosticados com fobia social ficam em posições subalternas em relação aos seus pares).

Por fim, cabe aos profissionais de saúde mental (e também a população leiga) adotar uma perspectiva crítica em relação aos diagnósticos psiquiátricos enquanto objetos culturais e que, portanto, não são "doenças naturais". Se assim fizermos, podemos evitar muitos estigmas e preconceitos associados aos transtornos mentais e melhor ajudar àqueles que sofrem destes males.


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