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  • Pedro Gouvêa

Reestruturação cognitiva x Desfusão cognitiva: Breves considerações teóricas e clínicas

Basicamente, existem 2 procedimentos terapêuticos para lidar com os pensamentos no contexto das terapias cognitivas e comportamentais: 1) Reestruturação cognitiva; e 2) Desfusão cognitiva. Neste artigo, vamos discutir um pouco sobre as características de cada um deles e suas implicações clínicas.

A reestruturação cognitiva consiste no procedimento de identificar crenças e pensamentos "disfuncionais", questioná-los com base nas evidências e formular um pensamento mais adaptativo. Essa técnica é o coração da terapia cognitiva tradicional.

a desfusão cognitiva consiste no procedimento de apenas notar os pensamentos, sem fazer absolutamente nada além disso. Ou seja, aqui, não há a necessidade de questionar os pensamentos nem formular pensamentos diferentes. Essa técnica é central na terapia de aceitação e compromisso (ACT).

É importante saber que os dois procedimentos têm objetivos distintos: Enquanto que na reestruturação cognitiva o objetivo é alterar a estrutura/conteúdo do pensamento, na desfusão cognitiva é se desconectar dos pensamentos e apenas observar o seu fluxo como folhas passando na correnteza de um rio.

Uma outra diferença importante sobre o objetivo dessas 2 técnicas que deve ser mencionado é que a reestruturação cognitiva visa a redução de sintomas. Por exemplo, um terapeuta cognitivo, ao lidar com um cliente ansioso, irá aplicar a reestruturação cognitiva com o objetivo de reduzir ou controlar a ansiedade deste.

Já a desfusão cognitiva visa criar uma distância entre os pensamentos e o "pensador" (a pessoa que pensa) para criar melhores condições da pessoa fazer escolhas em direção ao que importa pra ela, e não escolhas baseada no que o seu pensamento lhe diz. Nesse sentido, nem os pensamentos nem os sentimentos são vistos como "visitantes indesejados" que precisam ser expulsos da festa.

Embora a reestruturação cognitiva já tenha demonstrado a sua eficácia clínica para uma série de transtornos psicológicos, os estudos mais recentes (p. ex., na área da RFT - Teoria das Molduras Relacionais) vem demonstrando que a desfusão, além de ser um procedimento mais "econômico", pode ter uma efeito mais consistente a longo prazo.

Isso porque, diferente da reestruturação que visa alterar a forma/conteúdo do pensamento, a desfusão visa alterar a sua função. Além disso, os estudos em RFT vem demonstrando que, uma vez que uma rede relacional foi aprendida (p. ex., uma crença sobre ser incompetente), ela não pode ser desaprendida. Nesse contexto, a desfusão poderia ser um procedimento clínico mais útil.

Na prática clínica, embora as duas técnicas possam ser utilizadas em conjunto, normalmente os terapeutas cognitivos irão priorizar a reestruturação e os terapeutas ACT irão priorizar a desfusão. Como foi dito, ambos tem objetivos distintos em termos de resultado clínico com a técnica.

Por fim, vale mencionar que a reestruturação e a desfusão cognitiva se originaram de tradições clínicas com fundamentos teóricos distintos. Ou seja, a reestruturação cognitiva parte de um pressuposto cognitivista do ser humano, enquanto que a desfusão tem suas raízes na análise do comportamento ou ciências comportamentais contextuais.



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