Timidez e Ansiedade Social: quando o julgamento do outro pesa mais do que deveria

September 30, 2017

 

       Uma característica marcante da nossa sociedade é o fato de que os aplausos, o reconhecimento, a admiração, e outros tipos de gratificação social, são, geralmente, mais frequentes para as pessoas ou para os comportamentos ditos extrovertidos. Parece haver, explícita ou implicitamente, uma valorização excessiva da extroversão, da exposição social, especialmente através das redes sociais hoje em dia, do comportamento de falar bastante em uma interação social, da comunicação fluente, e assim por diante. Por outro lado, observa-se um certo descrédito, uma não valorização e um não reconhecimento dos comportamentos tidos como introvertidos, tímidos, retraídos, reservados ou socialmente ansiosos. Embora estes termos descritivos tenham diferenças entre si - por exemplo, timidez não é o mesmo que introversão - deixarei para uma próxima ocasião a exploração destas diferenças. 

       Em essência, o sujeito tímido é aquele que se preocupa além da conta com o que os outros pensam a seu respeito. Mostra-se ansioso e temeroso em ser mal avaliado, julgado, criticado e rejeitado em uma interação social. No entanto, estas características estão presentes em praticamente toda a humanidade, uma vez que preocupar-se com a opinião alheia tem certo valor de sobrevivência. Imagine um sujeito que vai apresentar um trabalho em público totalmente despreocupado com as avaliações e julgamentos que pode receber. Provavelmente, o desempenho desse sujeito seria insatisfatório e ele poderia ser punido de alguma forma que realmente o prejudicasse. À isso, damos o nome de ansiedade social e não há nada de errado com ela, pois é uma característica natural do ser humano enquanto parte de uma sociedade. Alguém com ansiedade social não paralisa, evita ou sofre além da conta por ter que fazer algum tipo de exposição social. Já o tímido, por sua vez, tende a responder com uma ansiedade mais elevada às situações sociais e tende a apresentar um maior grau de sofrimento e evitação nestas situações. Em casos mais extremos, a ansiedade social pode chegar a um nível em que é considerada um transtorno pela psiquiatria, o chamado transtorno de ansiedade social (TAS). Aqui, o sujeito sofre com uma ansiedade extrema, geralmente paralisante, relacionada a qualquer evento que envolva exposição social e, na maioria das vezes, evita estes eventos. Apenas o sinal de que poderá haver avaliação social já é o suficiente para gerar elevada ansiedade e posterior evitação. 

     Vamos esclarecer com um exemplo prático da situação que mais frequentemente gera ansiedade e evitação social - FALAR EM PÚBLICO. Imagine o seguinte:

Um sujeito tem um trabalho onde irá apresentá-lo sozinho na escola ou na faculdade. Como responderiam, provavelmente, um tímido, um sujeito com TAS e um sujeito sem essas características?

 

TÍMIDO - Ficaria ansioso com certa antecedência (talvez uma semana antes da apresentação), apresentaria o trabalho mesmo ansioso (talvez ficando vermelho, gaguejando, esquecendo, etc.), não teria seu desempenho tão comprometido e obteria, talvez, um bom resultado após a apresentação.

 

UM SUJEITO COM TAS - Ficaria ansioso com bastante antecedência (talvez meses antes da apresentação), em níveis bastante elevados (ruminações, autoavaliações negativas, tensão muscular, insônia, etc.), provavelmente evitaria a situação (faltaria no dia, ou "inventaria uma desculpa"), e perderia a nota do trabalho.  

 

UM SUJEITO SEM ESSAS CARACTERÍSTICAS - Ficaria ansioso com pouca antecedência (talvez apenas no dia anterior ou momentos antes da apresentação), apresentaria o trabalho com um leve desconforto (natural diante da exposição), e obteria, provavelmente, um resultado satisfatório. 

 

        Notem que, nos três casos, sempre há a presença da ansiedade social, mas em níveis maiores ou menores de intensidade e que interferem mais ou menos no desempenho em público. As consequências destes comportamentos também têm um papel importante, uma vez que, ao evitar uma exposição social, o sujeito também evita qualquer possibilidade de entrar em contato com aquilo que ele mais teme - a avaliação e a crítica dos outros. Ao não entrar em contato com a situação, duas coisas tendem a acontecer: 1) Aumento gradual da ansiedade em situações sociais futuras, e 2) Não desenvolvimento de comportamentos socialmente habilidosos. No caso dos tímidos e, principalmente dos que apresentam o TAS, o controle exercido pelo outro pode chegar a dominar todo um repertório comportamental, no sentido de suprimi-lo, ou seja, o sujeito pode vir a não sair mais de casa e se isolar completamente. Não é preciso dizer que este tipo de controle gera um sofrimento e um prejuízo devastador na vida destes sujeitos. A boa notícia é que, como grande parte dos comportamentos socialmente ansiosos é aprendida, pode-se modificar este grau de controle tão elevado exercido pelo outro. Em outras palavras, pode-se diminuir o "peso" que o julgamento ou a crítica do outro tem sobre nós e, com isso, aumentar consideravelmente a qualidade de vida. 

        Importante ressaltar que os termos utilizados aqui, ou seja, ansiedade social, timidez, introversão, e mesmo "transtorno de ansiedade social", NÃO são doenças, anormalidades ou desvios de caráter. São características comportamentais selecionadas ao longo da história de interação do sujeito com o seu mundo. Como dito no início, a própria sociedade tende a valorizar e a encarar como "normal" os sujeitos mais extrovertidos e socialmente habilidosos, ao mesmo tempo em que tende a ver com estranheza - e mesmo com um certo olhar de que "há algo de errado" - e desvalorizar aqueles que são mais tímidos ou introvertidos. Sendo assim, fica a reflexão: o que, de fato, precisa ser alterado? A timidez e a ansiedade social do indivíduo ou a cultura da extroversão? Isso é possível? De que forma? Questões para um próximo episódio. 

 

 

 

 

 

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