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  • Pedro Gouvêa

Busque ficar ansioso!


Tradicionalmente, as terapias comportamentais e cognitivas sempre concentraram seus esforços em ajudar o cliente a reduzir seus sintomas de ansiedade através das mais variadas técnicas. A ideia básica que fica implícita por trás destes procedimentos é a seguinte: "a ansiedade é ruim, você deve controlar a sua ansiedade".

Obviamente, todas as terapias e terapeutas estão inseridos em uma cultura que, inevitavelmente, acaba influenciando suas crenças, percepções e práticas profissionais. Essa cultura (a nossa cultura) costuma supervalorizar o bem-estar e a felicidade e induzir os indivíduos a buscarem fugir de qualquer dor ou sofrimento, ainda que a dor e o sofrimento sejam aspectos naturais da condição humana. No final das contas, há uma patologização excessiva dos sentimentos e comportamentos.

Bem, não é o foco deste artigo discutir estes aspectos culturais, porém, é importante que o terapeuta tenha uma visão crítica sobre o funcionamento do seu contexto cultural que, muitas vezes, contribui para gerar mais sofrimento para o seu cliente.

O fato é que, nas últimas décadas, diversos modelos terapêuticos foram propostos com um foco diferente. Ao invés de tentar mudar aspectos imutáveis da experiência humana (como a ansiedade), o foco passou a ser a aceitação destes aspectos. Logicamente, não deixamos de lado os processos de mudança, mas enfatizamos a aceitação.

Um exemplo prático no caso da ansiedade social é o seguinte. Ao invés de esperar a ansiedade reduzir em um procedimento de exposição social, procure se manter ansioso. Não crie expectativas de que ela diminua, apenas fique com ela da maneira como ela se apresenta. Isso pode criar um mecanismo diferente que, paradoxalmente, reduz a ansiedade, pois você passa a se relacionar com ela de uma maneira diferente, não mais tentando expulsá-la, apenas convivendo com ela.

Já foi demonstrado que as tentativas de controle e evitação da ansiedade produzem (de modo geral) um aumento da mesma. Portanto, a ansiedade não é o problema em si mesma. O problema é a tentativa de controlá-la (uma maneira disfuncional de se relacionar com ela).

No livro "Transtornos Psicológicos - Terapias Baseadas em Evidências" (2021), no capítulo sobre Transtorno do Pânico, o autor coloca alguns pontos sobre isso, como, por exemplo: "a ansiedade não pode se controlada diretamente e querer controlá-la gera mais ansiedade"; "o que se busca é que o paciente verifique que o desejo de ficar ansioso costuma ter um efeito ansiolítico e que tentar relaxar costuma ter um efeito ansiogênico".

Estes exemplos ilustram bem a ineficácia das tentativas de controle da ansiedade, ao mesmo tempo em que indicam que uma postura aberta e de aceitação produzem efeitos mais benéficos. Portanto, busque refletir sobre as suas próprias tentativas de fugir ou controlar a ansiedade e tente maneiras alternativas de se relacionar com ela. Às vezes, os eventos podem ocorrer de forma oposta aos nossos desejos e desejar ficar ansioso pode gerar menos cobrança e menos ansiedade. Tudo é uma questão de como você se posiciona em relação ao que acontece com você.


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Material consultado:


Abreu, P. R., & Abreu, J. H. S. S. (2021). Transtornos psicológicos: Terapias baseadas em evidências. Santana de Parnaíba (SP): Manole.

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